Chinesa Gui Lin adota o Brasil e vai a Londres ao som de Teló

21/06/2012 15:28

Sentada em um banco no Centro de Treinamento de São Bernardo do Campo, Gui Lin tenta se fazer invisível enquanto ajeita o uniforme. A menos de dez metros dali, Hugo Hoyama conversa com jornalistas em uma tarde fria de quarta-feira e nem pensa em diminuir o tom. Ao notar que é a personagem principal do assunto do técnico, ela dá um sorriso sem graça e abaixa a cabeça.

De uns meses para cá, a mesa-tenista se acostumou a ser o centro das atenções dentro do esporte. A chinesa, nascida em Nanning e há sete anos no Brasil, conseguiu a naturalização no início de maio após um longo processo burocrático. Semanas depois, foi confirmada na equipe que vai representar o Brasil nos Jogos de Londres.

Ao deixar para trás uma nação que domina o esporte, Gui Lin resolveu arriscar. Mudou de país aos 12 anos, pelas mãos de Wei Jian Ren, ex-treinador da seleção brasileira.

“Conversei com meus pais e eles disseram: ‘Vai lá’. Acharam que ao menos seriam férias”, ela brinca. Mas a menina gostou, ficou e voltou à China apenas para visitar a família. Adaptada ao Brasil, logo criou laços e conquistou amigos. Quando a naturalização foi anunciada, também foi divulgada uma suposta paixão pelo churrasco. Não que ela não goste de carne, mas suas maiores preferências no país são outras.

Gui Lin , do tênis de mesa  (Foto: João Gabriel Rodrigues / Globoesporte.com)Gui Lin brinca com a bolinha antes do treino: vaga em Londres (João Gabriel Rodrigues / Globoesporte.com)

- Não sei de onde tiraram essa história de churrasco. Eu gosto, mas também não é assim (risos). Eu já fui a um show do Michel Teló, gosto muito da música dele. E passei a acompanhar futebol e a torcer para o Palmeiras (time de Hoyama e que apoia a equipe de São Bernardo do Campo). Mas depois que comecei a torcer, o Palmeiras não ganhou mais nada - brincou a jogadora, hoje com 19 anos.

Gui Lin não se arrisca a cantar as músicas de Teló. O português ainda é travado, mas sem erros. Se o vocabulário ainda não é tão extenso, Gui Lin vence as dificuldades do idioma com simpatia. Nem sempre foi assim. Quando se mudou, a mesa-tenista teve dificuldades para aprender a nova língua. Seu técnico na época, Maurício Kobayashi foi fundamental na adaptação.

- Ele começou com uma brincadeira. Todo dia, me dava 25 palavras para eu decorar o significado. No começo, era uma brincadeira, mas as meninas também gostaram e passaram a me ajudar. Todo dia eu decorava 25 palavras novas. E, com o tempo, fui aprendendo - disse Gui Lin, que está no 3º ano do ensino médio e não sabe qual carreira tentará no vestibular.

Gui Lin e Hugo Hoyama, do tênis de mesa  (Foto: João Gabriel Rodrigues / Globoesporte.com)Gui Lin conversa com Hugo Hoyama: mestre e
pupila (João Gabriel / Globoesporte.com)

Se o começo no país não foi tão fácil, a situação mudou. Hoje, Gui Lin não cogita deixar o país a não ser para férias.

- No começo foi muito difícil, não sei dizer o que foi mais complicado. Pensei em voltar algumas vezes, mas agora só nas férias. Não quero mais sair, eu gosto muito daqui.

Maior nome do tênis de mesa brasileiro, Hugo Hoyama fala com orgulho da pupila. Lembra de seu início no esporte e tenta adotar uma postura parecida à de seu tutor, o mesmo Maurício Kobayashi que treinou Gui Lin na chegada ao país. Ainda sem largar a carreira de jogador, ele se veste cada vez mais com a capa de técnico.

- Ela é um pouco insegura. Eu aprendi mais com as minhas derrotas do que nas vitórias. Às vezes, ela treina muito bem durante oito minutos e vai mal em dois e isso acaba mexendo com ela. Não pode ser assim. Quando preciso, dou umas broncas, e ela começa a chorar. Eu converso muito, ela precisa ganhar confiança.

Gui Lin admite que seu maior problema é psicológico. Afirma que ainda é insegura, sem muita confiança em seu jogo. Para crescer nas competições, a jogadora conta com a ajuda de Hoyama.

- Falta confiança. Todo mundo diz que eu tenho futuro, que eu jogo bem. Mas eu não sei, né? Hoje de manhã, ele me deu três tapas na cabeça para eu me concentrar mais. Às vezes ele me dá uns tapas na cabeça do nada (risos). Diz que é só para ver se eu estou esperta. Preciso trabalhar mais minha cabeça. Depois que eu ganhar mais confiança, meu jogo vai fluir mais. Eu sei disso.

Apesar da naturalização, Gui Lin tinha dúvidas se iria mesmo para Londres. Demorou a acreditar que conseguiria resolver tudo a tempo e que seria chamada pela Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) para integrar a equipe. Quando buscou o passaporte, porém, viu que estava a um passo de realizar o sonho.

Gui Lin e Hugo Hoyama, do tênis de mesa  (Foto: João Gabriel Rodrigues / Globoesporte.com)Hoyama ajuda Gui Lin nos treinos antes de Londres (Foto: João Gabriel Rodrigues / Globoesporte.com)

- Eu, no fundo, não sabia se ia participar dos Jogos ou não. Mas sempre me preparei para ir. Passou tanto tempo para conseguir a naturalização que fiquei insegura. Aí a naturalização saiu, mas eu não tinha o passaporte ainda. Só quando eu peguei o passaporte é que caiu realmente a ficha.

Mas a ida de Gui Lin para Londres não foi tão simples. Todo o processo de naturalização da chinesa foi alvo de críticas de alguns técnicos e jogadores. Mas a maior polêmica veio após a reclamação de uma amiga. Também na disputa por uma vaga na equipe, Jéssica Yamada protestou contra os critérios de escolha da CBTM.

Eu acredito que o tênis de mesa no Brasil possa crescer. Esse é o meu objetivo. Eu vim para ajudar."
Gui Lin

Na época, Jéssica ocupava a 247ª posição do ranking mundial, à frente de Gui Lin, que era a 260ª. Mas, no início do mês, na nova lista da Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF, na sigla em inglês), a escolhida já havia ultrapassado a amiga (260ª contra 262ª). Ela, então, se defende.

- Não toquei ainda no assunto com ela, mas não vai alterar em nada nossa amizade. No início de junho, o ranking atualizou. Como a naturalização ainda não havia saído, eu não viajei muito com a seleção. Então, não conquistei pontos para o ranking. Mas acho que o ranking também não é tão importante assim. Para mim, não é nada demais - disse.

Embora admita ser quase impossível voltar dos Jogos com uma medalha, Gui Lin diz que sua missão é outra. Os olhos pequenos da nova brasileira estão voltados mais para frente.

- A medalha é muito difícil de trazer. Espero jogar bem, fazer um bom resultado. Mas eu acredito que o tênis de mesa no Brasil possa crescer a partir de agora. Esse é o meu objetivo. Eu vim para ajudar.