Dagoberto Midosi é testemunha das origens do Tênis de Mesa brasileiro

27/03/2013 12:34

“Se quereis saber o futuro do Fluminense, olhai para o seu passado. A história tricolor traduz a predestinação para a glória". Quando o jornalista e escritor Nelson Rodrigues criou essa frase pode muito bem ter se inspirado no Tênis de Mesa, que há mais de 70 anos é praticado nas Laranjeiras.

O representante da primeira Seleção Brasileira que disputou o Campeonato Mundial de 1949, na Suécia, continua frequentando fielmente o aristocrático clube toda terça-feira, onde mantém o corpo e a mente em atividade e vê a tradição sendo seguida com o surgimento de novos talentos.

Prestes a completar 96 anos, Dagoberto Midosi é testemunha das origens e ajudou a escrever as mais belas páginas do esporte no país. Atualmente treina no mesmo local por onde já passaram jogadores consagrados e recentemente revelou Hugo Calderano, promessa para os Jogos de 2016.

Com a elegância de quem frequenta a tribuna de honra do Jockey Club do Rio de Janeiro desde 1933, Dagoberto chegou de terno para seu habitual exercício semanal, mas com uma motivação extra e empolgado pelo fato de ter sido procurado no dia anterior para conceder uma entrevista.

Sentado em uma das mesas do bar da piscina, acompanhado pelos amigos Luiz Mauro, Diretor de Tênis de Mesa, e Alexandre De La Peña, benemérito, Dagoberto era apenas mais um em um lugar frequentado por atletas de diversas modalidades e nem de longe aparentava a idade que possui.

--- Só que na minha idade é impossível tudo funcionar direito --- divertiu-se Dagoberto, para quebrar o gelo, compensando com bom humor um pequeno problema de audição que é a única deficiência notável.

Dagô, como é carinhosamente chamado por todos, tem também um problema no coração que foi diagnosticado há mais de dez anos e o Tênis de Mesa é a única atividade física que continua fazendo.

--- O médico disse que posso jogar o quanto puder. No momento em que estiver começando a ficar cansado tenho que parar. Então é isso que faço --- explicou Dagô, que também é apaixonado por corridas de cavalo e só não assistiu a uma edição do Grande Prêmio Brasil, a prova mais tradicional do turfe no país, em 1952, porque foi disputar o Sul-Americano de Tênis de Mesa no Paraguai.

O início foi igual ao de muitos meninos e meninas, que jogam ping-pong nas escolas por diversão. Mostrando ter uma memória incrível, Dagoberto lembra que 1933 ajudou a equipe do colégio Marista São José a vencer o Clube Ginástico Português, que na época dominada as competições.

--- Tinha uns 16 anos e fui chamado para a Seleção carioca. Conseguimos vencer os paulistas pela primeira vez, mas depois acabei entrando na faculdade para fazer Direito e parei de jogar. Terminei o curso em 1939 e dois anos depois comecei a frequentar o Fluminense porque um amigo meu disse que as mulheres mais bonitas do Rio estavam nas festas do clube --- explicou.

Em 1946, na sede do Fluminense, foi realizado o primeiro Campeonato Brasileiro, com a participação das federações Carioca, Paulista e Fluminense. Um atleta das Laranjeiras, Antonio Corrêa, foi campeão Individual a Federação Carioca, representada por Dagoberto, Carlos Mendes, José Neves e Antonio Corrêa foi campeã de Equipes.

Em fevereiro de 1947, o Brasil participou pela primeira vez do Campeonato Sul-Americano, realizado em Mar del Plata, Argentina, com Ivan Severo e Dagoberto Midosi nos jogos individuais e Ivan Severo e Antonio Corrêa na dupla, Os brasileiros ainda jogavam com raquete de madeira, mas assim mesmo conquistaram o bronze.

Depois que passaram a usar o mesmo material dos demais, a borracha granulada, os brasileiros melhoraram tecnicamente e em 1949 participaram pela primeira vez do Campeonato Mundial, realizado em Estocolmo, na Suécia. No mesmo ano o Brasil foi campeão Sul-americano, em um evento realizado no Rio de Janeiro, no Cassino Atlântico.

Os Mundiais eram disputados anualmente e o Brasil compareceu, pela segunda vez, no torneio realizado em Budapest, Hungria. A equipe seguiu formada pelo que de melhor havia com Ivan Severo, Hugo Severo e Dagoberto Midosi. Não foi possível levar o quarto jogador e os três repetiram a atuação da estreia, vencendo duas partidas.

--- Essa participação foi uma verdadeira aventura, pois o país sede fazia parte da chamada “cortina de ferro”, e o Brasil não mantinha relações diplomáticas com os húngaros.  Mesmo assim, a equipe seguiu via Copenhagen (Dinamarca) e de lá foi enviado um telegrama para a Federação Húngara comunicando a data da nossa chegada. No aeroporto, foi dado o visto para o nosso ingresso no país e tudo correu normalmente --- lembra.

Dagoberto participou ainda da competição em 1952, em Bombaim, na Índia, em 1953, em Bucarest, na Romênia, e em 1954, em Londres, na Inglaterra, quando o Brasil conseguiu um feito histórico ao se classificar em sexto lugar no ranking, figurando entre os dez primeiros países do mundo pela primeira vez.

Depois disso, esteve em Utrecht, na Holanda (1955), em Tóquio, no Japão (1956), e em Estolcomo, na Suécia (1957). Na época com quase 40 anos, Dagoberto decidiu que era o momento de encerrar a carreira de jogador, mas em 1959 ainda conquistou o Mundial de Master que aconteceu na Alemanha.

Com lucidez e conhecimento, o experiente atleta fez uma comparação com o atual momento vivido por Hugo Hoyama, que já está atuando como técnico da Seleção feminina.

--- O Tênis de Mesa de alto nível requer um condicionamento físico muito bom. Com 43 anos de idade a pessoa não tem mais perna para acompanhar o ritmo de um garoto de 20 anos. Acho que Hugo fez o certo --- avaliou Dagoberto, que depois de tantas recordações trocou de roupa e foi jogar, assim como acontece há setenta anos.

--- É preciso se manter ativo, sair de casa, ver os amigos. Amo esse esporte, amo a vida! Esse é o segredo --- ensina.