Profissionalismo é a palavra de ordem do Tênis de Mesa brasileiro

30/03/2013 14:33

A Seleção Brasileira foi representada na Copa do Mundo que aconteceu em Guangzhou, na China, por seis atletas e dois técnicos. No masculino, Cazuo Matsumoto, Gustavo Tsuboi e Thiago Monteiro foram até as quartas de final e perderam para os japoneses, por 3 a 1, jogando de igual para igual e com Cazuo superando Jun Mizutani.

No feminino, atuaram Lígia Silva, Jessica Yamada e Caroline Kumahara, que chamou a atenção ao vencer a atual nº 9 do Ranking Mundial, a japonesa Kasumi Ishikawa. Os comandantes da participação histórica foram Hugo Hoyama e Jean-René Mounie, agora supervisionados por Lincon Yasuda.

É importante fazer uma comparação com o passado para mostrar que o país não ficou parado no tempo e vem se desenvolvendo graças ao trabalho realizado por várias gerações. Se agora o Brasil é respeitado e está entre os melhores do mundo se deve ao fato de ter deixado para trás o amadorismo com que o esporte era administrado.

O Brasil participou pela primeira vez do Campeonato Mundial em 1949, em Estocolmo, na Suécia. Na época a entidade responsável era a Confederação Brasileira de Desportos, que ficou quase uma década sem dar ajuda financeira ao Tênis de Mesa, sempre alegando falta de recursos e outras prioridades.

Para conseguirem ir a Suécia, os pioneiros tiveram que passar por uma verdadeira saga, que envolveu muita perspicácia. O lituano naturalizado Mário Jofre, jogador do Fluminense, falou a seu companheiro de clube Dagoberto Midosi sobre a possibilidade dessa participação e disse que iria procurar ajuda para quatro passagens. Dias depois, desanimado, Mário quase perdeu as esperanças porque percebeu que não seria tão fácil assim. No entanto, Dagoberto teve uma ideia e sugeriu que os dois fossem procurar a SAS (Scandinavian Airlines System), empresa aérea da Suécia, país sede do campeonato, para oferecer uma proposta ao setor de publicidade.

Em troca da exposição da marca na camisa, a empresa ofereceu 50% de desconto, o que era bastante, mas não o suficiente. Dagoberto então teve outra ideia e ofereceu a chefia da delegação um amigo, Raul Martins, excelente negociador que trabalhava no Gabinete Civil do Governo do General Eurico Gaspar Dutra, mas desde que obtivesse o patrocínio dos 50% que faltavam.

--- Ele aceitou e saiu em busca desse montante, encontrando a mesma dificuldade, já que o Tênis de Mesa era um esporte praticamente desconhecido do grande público --- afirma Dagoberto, que tem 95 anos e ainda se lembra de tudo com uma riqueza de detalhes impressionante.

Disposto a ver o Brasil disputando pela primeira vez um Campeonato Mundial, Dagoberto não se deu por vencido e decidiu pedir ajuda a Gagliano Neto, famoso locutor da Copa do Mundo de Futebol, em 1938, que estava inaugurando a Rádio Continental, dedicada exclusivamente a esportes.

--- Gagliano deu-nos a solução: não tinha dinheiro, pois a rádio estava sendo implantada, mas nos deu uma carta de crédito em publicidade no valor dos quatro bilhetes, dizendo que o produto da venda serviria para cobrir os 50% que faltavam. Rápido, Martins vendeu à própria SAS parte da publicidade e, facilmente, vendeu o que restava para outros interessados em anunciar na rádio --- lembra Dagoberto.

Estreando em campeonatos mundiais, a equipe formada por Ivan Severo, Dagoberto Midosi, Mário Jofre e Antonio Corrêa venceu dois jogos em seu grupo e recebeu muitos elogios dos especialistas. Essa participação foi decisiva para o futuro do Tênis de Mesa brasileiro, pois a experiência foi repassada aos demais praticantes. No mesmo ano, o Brasil conquistou pela primeira vez o Sul-Americano, evento que foi realizado no Rio de Janeiro, iniciando uma hegemonia que foi mantida pelas gerações seguintes.

Na última sexta-feira, o país onde tudo começou cruzou novamente o caminho dos brasileiros, só que dessa vez em uma disputa na mesa. A Suécia, que no passado recebeu os desbravadores Ivan, Dagoberto, Mário e Antônio, agora também faz parte da história de Cazuo Matsumoto, Gustavo Tsuboi e Thiago Monteiro, pois graças a vitória sensacional sobre os suecos, que já foram cinco vezes campeões do mundo, os brasileiros garantiram um lugar entre os oito melhores da competição.

Para Cazuo Matsumoto e Caroline Kumahara, que atualmente são os dois melhores das Américas, a Copa do Mundo teve uma emoção ainda maior por causa das vitórias que conseguiram sobre Jun Mizutani e Kasumi Ishikawa, que ocupam a nona posição no ranking masculino e feminino, e formam o casal nº 1 do Japão. É impossível esquecer o romantismo da história vivida no passado, mas para seguir evoluindo o profissionalismo passou a ser a palavra de ordem do Tênis de Mesa brasileiro.