Dakar 2026: Daniela Bassi será a primeira mulher a liderar o tênis de mesa brasileiro nos Jogos Olímpicos da Juventude
Treinadora comandará Bianca Borges e Felipe Okano em Dakar 2026 e amplia trajetória marcada pela abertura de espaços para mulheres em posições técnicas

Quase 40 anos separam a menina que começou a jogar tênis de mesa da treinadora que, agora, se prepara para viver um momento que nunca chegou a planejar.
Entre os dias 31 de outubro e 5 de novembro, Daniela Bassi estará em Dakar, no Senegal, à frente de Bianca Borges e Felipe Okano nos Jogos Olímpicos da Juventude. Será a quarta participação brasileira da modalidade no evento e, pela primeira vez, uma mulher comandará a equipe do país.
"É difícil até encontrar palavras para explicar o que estou sentindo. É uma mistura de emoção e gratidão. Quando olho para trás e vejo toda a minha trajetória, jamais imaginei que pudesse viver um momento tão especial como esse", contou.
Antes de Daniela, três treinadores estiveram à frente do Brasil nas edições anteriores. Guilherme Simões acompanhou Luca Kumahara e Eric Jouti em Singapura 2010; Francisco Arado, o Paco, esteve com Hugo Calderano em Nanquim 2014; e Nelson Kusuoka comandou Bruna Takahashi e Guilherme Teodoro em Buenos Aires 2018.
Em Dakar, a sequência ganha um novo nome - e um significado diferente.
"São quase 40 anos dedicados ao tênis de mesa, uma modalidade que faz parte da minha vida e que me proporcionou muito mais do que conquistas esportivas. Foram muitos desafios, dificuldades, aprendizados e pessoas que fizeram parte dessa caminhada."
O caminho inesperado
Daniela começou cedo, primeiro como atleta. Com o passar dos anos, encontrou do outro lado da mesa uma realização que acabaria definindo boa parte da sua vida: ensinar.
"Sinceramente, nunca imaginei chegar tão longe. Comecei muito pequena no tênis de mesa e foi ao longo dos anos que descobri na profissão de treinadora uma das minhas maiores realizações: ensinar, formar atletas e, acima de tudo, contribuir para a formação de pessoas."
Foi assim, sem traçar a chegada a um evento olímpico como destino, que a trajetória foi avançando.
Em Jaú, no interior de São Paulo, Daniela construiu parte importante dessa história trabalhando na formação de atletas. Em 2010, foi eleita pela segunda vez a melhor técnica da Liga Paulista. Mais tarde, passou a ocupar espaço cada vez maior nas seleções brasileiras e em projetos de desenvolvimento da CBTM.
Em 2025, tornou-se a primeira mulher a comandar uma equipe adulta brasileira em uma competição internacional, no Campeonato Sul-Americano de Lima. Hoje, é responsável pelas seleções femininas Sub-15 e Sub-19.
"Minha caminhada nunca foi planejada com o objetivo de chegar a uma Olimpíada. Sempre pensei em fazer bem aquilo que amo, um dia de cada vez. Por isso, receber essa oportunidade hoje é também olhar para trás e perceber que cada dificuldade, cada treino, cada atleta e cada experiência contribuíram para me trazer até aqui."
E Daniela não esquece de onde esse caminho começou.
"Nessa trajetória, também foram fundamentais as pessoas que estiveram ao meu lado: os atletas, as famílias e todos que acreditaram no nosso trabalho em Jaú. Levo comigo essas relações, minhas raízes e a minha história, com a certeza de que, independentemente de onde eu esteja, nunca posso esquecer de onde vim."
Abrir espaço para quem vem depois
Ser a primeira mulher a ocupar o posto nos Jogos Olímpicos da Juventude tem um peso que Daniela reconhece. Mas ela prefere não enxergar o marco apenas como uma conquista pessoal.
"Ser a primeira mulher a ocupar esse espaço é uma honra muito grande, mas não vejo essa conquista como algo somente meu. Ela representa também todas as mulheres que trabalham, acreditam e lutam diariamente pelo seu espaço no esporte."
Para ela, o significado se amplia justamente se o caminho puder continuar depois de Dakar.
"Se a minha trajetória puder incentivar outras mulheres a acreditarem que também são capazes de chegar, isso já terá um significado enorme para mim."
Mais do que uma competição
A missão no Senegal, porém, não termina no pioneirismo.
Daniela estará ao lado de dois jovens que também viverão um momento especial de suas trajetórias. Bianca Borges e Felipe Okano chegam a Dakar depois de anos de formação e experiências internacionais, mas encontrarão pela primeira vez o ambiente de um evento olímpico.
E, para a treinadora, o que os dois levarão dali não poderá ser medido apenas pelo placar.
"Quero que eles aproveitem cada instante, entrem na mesa com coragem, confiança e alegria por estarem vivendo essa oportunidade. É claro que vamos buscar os melhores resultados possíveis, porque representar o nosso país exige dedicação e compromisso, mas também quero que eles compreendam o valor de tudo o que estarão vivenciando."
É uma visão que acompanha Daniela desde os primeiros anos como treinadora.
"As medalhas são importantes, mas os valores, as amizades, o respeito e os aprendizados construídos ao longo da caminhada são ainda maiores."
Quase quatro décadas depois de começar no tênis de mesa, aquela menina continua presente.
"A Dani de hoje ainda carrega muito daquela menina que começou a jogar: a vontade de aprender, a determinação, a emoção e, principalmente, o amor pelo esporte."
Talvez seja justamente por isso que Dakar tenha tanto significado.
Daniela chega ao Senegal como a primeira mulher a comandar o Brasil nos Jogos Olímpicos da Juventude. Mas chega também levando Jaú, os atletas que ajudou a formar, as famílias que caminharam ao seu lado e todas as versões de si mesma que fizeram parte desses quase 40 anos.
Ela nunca planejou chegar a uma Olimpíada.
Passou a vida apenas tentando fazer bem aquilo que amava.
E foi assim, um dia de cada vez, que chegou até lá.





